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Akita: um só nome, duas paixões
Um congresso mundial, inédito na cinofilia,
define o Akita "americano" como incompatível com os rumos desejados
pelo Japão, país de origem da raça Tóquio, dezembro de 1996. Num dos
grandes hotéis da cidade, 41 representantes dos mais importantes
clubes do Akita em catorze países, espalhados por quatro continentes
e responsáveis pela maior parte da criação da raça no mundo,
encontraram-se por três dias. O anfitrião, maior entidade da
cinofolia no país de origem da raça, o Japan Kennel Club (JKC),
elevou ao extremo a tradicional cortesia japonesa - o patrocínio do
evento se estendeu à passagem e hospedagem de todos os participantes
estrangeiros. O que reuniu aqueles homens foi uma paixão em comum.
Ou melhor, duas diferentes paixões nascidas de uma só: o Akita. Essa
raça, pelos desígnios do destino e da vontade humana, nas últimas
décadas foi dividida em dois tipos distintos. E levou aqueles
congressistas ao mais importante encontro jamais promovido em função
de uma raça canina. "Nunca vi nada parecido", assegurou a Cães & Cia
o experiente membro da comissão de padrões oficiais da Federação
Cinológica Internacional (FCI), Raymond Triquet. O anfitrião - um
dos responsáveis pela diferença de tipos do Akita - e os Estados
Unidos - o outro responsável - eram os principais protagonistas.
"Nós, os japoneses, somos culpados pelo incorreto tipo americano e
pedimos ao mundo que nos perdoe", declarou em 1995, numa convenção
na Alemanha, o então presidente-executivo do JKC, Toyosaku Kariyabu.
Os demais convidados representavam milhares de Akitas, proprietários
e criadores das outras partes do mundo, todos afetados de alguma
maneira pelos atos dos dois principais protagonistas.
BABEL
A história começou com o Akita quase extinto pelas guerras que
afligiram o Japão. E com a aparência descaracterizada pela
mestiçagem com cães trazidos à ilha por estrangeiros, inclusive
pelos exércitos que por lá passaram. Exibia características nada
orientais, como máscara negra, focinho curto e físico robusto,
transmitidas por molossos (a exemplo dos Mastins e Mastifes) e pela
raça Pastor Alemão. Foram exemplares assim que chegaram aos Estados
Unidos no fim da década de 40. A aparência intimidatória deles -
atributo valorizado pelos ocidentais nos cães de guarda - agradou. A
maior potência cinófila ocidental deixou-se conquistar pelo Akita
ocidentalizado e tratou de multiplica-lo e aprimora-lo, segundo a
sua própria ótica. Alguns anos depois, o Japão começou um trabalho
para recuperar o aspecto oriental perdido do Akita. Era a década de
50. As diretrizes dessa correção de rumo foram passadas boca a boca,
de criador japonês a criador japonês. Mas não foram introduzidas no
padrão oficial, mantido na versão inicial de 1938. Poucos ocidentais
tiveram acesso às novas normas em viagens ao Japão ou ouvindo-as de
algum japonês vindo ao ocidente. E assim contribuíram para a
propagação delas nas regiões onde viviam. Ambos os tipos de Akita se
espalharam pelo mundo, encontrando seguidores entusiastas.
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O Japão e os Estados Unidos, situados em extremos opostos do
planeta, dedicaram-se com vigor à construção dos seus plantéis, por
cerca de quatro décadas. Trabalharam individualmente. Estavam
separados por uma extraordinária distância geográfica e também pela
diferença de línguas e por uma grande autonomia cinófila. Os
caminhos que trilharam foram opostos, curiosamente delimitados por
padrões oficiais semelhantes. "Como japonês, me sinto à vontade para
afirmar que uma das maiores causas do aparecimento dos dois tipos de
Akita está no próprio padrão da raça, já que os japoneses nunca se
preocuparam em detalhar nele as informações", diz Kichiro Maki,
vice-presidente do Clube Paulista do Akita, um dos pioneiros na
criação da raça no Brasil, divulgador do tipo oriental entre os
criadores brasileiros e responsável por seguidas importações do tipo
japonês, além de porta-voz dos novos rumos japoneses. Resultado da
Babel cinófila, a duplicidade de rumos do Akita pós-guerra
transformou-se em dois cães fisicamente diferentes.
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Percebendo que o padrão não era muito claro, os criadores
japoneses resolveram aprimorá-lo em 1992.
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E à medida que a dimensão das diferenças crescia, uma indagação se
tornava mais freqüente: seria o Akita uma só raça com dois tipos, ou
duas raças com um nome só? Na pujante cinofilia americana, a
população de Akitas, predominantemente mascarada, tornou-se bem
maior do que a do país de origem. Em outras nações filiadas à FCI,
seguidoras da criação japonesa, uma parte dos criadores dedicava as
suas energias e o coração ao Akita oriental e a outra parte, ao
ocidentalizado. Percebendo que o padrão não era muito claro, os
criadores japoneses resolveram aprimorá-lo em 1992. Acrescentaram
nas penalizações a falta de dentes, problema que estava ocorrendo; a
cor malhada, definindo que manchas brancas são toleradas mas a
ausência delas é preferível; e a máscara preta, símbolo maior da
falta de autenticidade japonesa, que passou a ser considerada falta.
A medida, divulgada pela FCI, atingiu os mais de 70 países filiados
a ela e alcançou numerosos amantes do Akita tipo americano, que
viram condenado o cão ao qual haviam dedicado muitos anos de suas
vidas. Ecoou também no Brasil. "Decepcionado, o dono de um Akita com
máscara negra que penalizei em 1992 só não entrou com representação
contra mim por constatar que o fizera devido ao novo padrão",
relembra Anita Soares, juíza de todas as raças, atual presidente do
Clube Paulista do Akita e criadora da raça há oito anos pelo
Antiques Place Kennel, em São Paulo. "Fiquei tão indignada ao saber
que meus Akitas mascarados não poderiam mais receber título de
campeão que escrevi à FCI", desabafa Maria Ercília Peverley,
criadora há nove anos pelo Hillmora Kennel, de Juiz de Fora.
"Imagine minha decepção quando fui surpreendida pelo novo padrão,
depois de adquirir um macho mascarado para acasalar com as minhas
quatro fêmeas sem máscara", reclama Nairangela Ferreira Zardo,
criadora de Akitas há três anos, pelo Canil Magia, de Curitiba.
Casos como esses aconteceram por toda parte.
VER
PARA CRER
Cinco anos depois de provocarem a sacudida, os japoneses realizaram
o grande congresso. O primeiro dia foi dedicado à aproximação dos
participantes, com as respectivas apresentações e um passeio
turístico por Tóquio. No segundo, todos foram a uma exposição
especializada, organizada pelos japoneses para mostrar aos
congressistas como estava a raça no país. Os 120 Akitas expostos
impressionaram. Loren Egland, um dos representantes do Akita Club of
America, nos EUA, onde há a maior criação de Akitas do mundo - mais
de 90% com o tipo americano e a maioria deles com máscara negra -
declarou: "Eu costumava ser contrário a algumas decisões dos
japoneses em relação à raça, mas enxerguei naqueles Akitas
diferenças bem maiores do que a simples ausência de máscara
apresentada pelos de'tipo japonês'em meu país." Ponto a favor dos
japoneses. Mas foi preciso Egland ir ao Japão, para constatar o
fato. Um privilégio que muitos dos envolvidos com o Akita não
tiveram, sendo que parte deles ainda tenta entender a mudança. "Foi
uma grande falta de respeito: afinal será que os mascarados são
menos Akitas que os outros?, pergunta Nairangela, expressando um
sentimento comum no mundo inteiro. No terceiro dia do congresso, o
destaque foi para a situação internacional da raça. Os convidados
ouviram do japoneses a determinação de prosseguir com o programa de
purificação. E dos participantes dos demais países, relatos dando
conta de que a maioria dos filiados à FCI está bem afinada com os
planos do Japão. Cresceu, assim, a percepção da principal mensagem
do congresso: os dois Akitas já não podem mais ser encarados como
uma única raça; o de tipo japonês não é mais compatível com o tipo
americano. Só resta, portanto, a formação de uma nova raça a partir
do tipo americano.
TORCIDA
Quem espera ver o Akita de tipo
americano reconhecido como raça à parte, conta com gente importante
na torcida. "As grandes diferenças entre os tipos de Akita na
atualidade são suficientes para justificar a criação de uma nova
raça", concorda o diretor do Club Italiano delle Razze Nordiche e
criador de Akitas há 20 anos, Andrea Bordone. "Tornar o Akita do
tipo americano uma nova raça seria uma compensação para quem o vem
criando há anos", opina Anita Soares. O presidente da comissão de
padrões oficiais da FCI, Jean-Maurice Pachoud, por exemplo, ao
responder à solicitação da criadora brasileira Maria Ercília,
posicionou-se pessoalmente de forma favorável à criação de outra
raça a partir do tipo americano. Ponderou, porém, que há outra raças
européias criadas de forma distinta pelos EUA, e que é preciso
encontrar uma solução geral. Reconhecer todas seria inviável. O
caminho a ser percorrido promete ser longo. "Cabe aos Estados Unidos
adotar outro nome para a raça, submetê-lo à aprovação do Japão e,
então, pedir que ela seja reconhecida", respondeu Pachoud na carta a
Maria Ercília. Mas os americanos estão acostumados a chamar de Akita
o tipo que produzem e amam. "Não será fácil obter a adesão da
maioria dos sócios do nosso clube", estima Egland. A criadora Linda
Yelvington, de Columbia, em Kentucky, EUA, é um exemplo do
desdobramentos que esse caso pode ter. Ela cria os dois tipos há
dezoito anos e não apóia a idéia, já que não viu até agora grandes
diferenças entre os tipos. "O primeiro número da revista
especializada que lancei em junho, The Akita Voice, é todo dedicado
ao debate da divisão da raça e divulga uma pesquisa na qual 85% dos
mais de 700 criadores consultados são contra." A mobilização ocorre
também no Brasil.
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"A angulação deverá ser especificada em 145 a 150 graus, pois só
assim é possível o típico andar saltitante da raça", prevê Anita
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Em maio passado, foi fundado o
clube The Akita Association, por Maria Ercília. "Nosso objetivo é
conseguir a aceitação dos Akitas mascarados por toda a cinofilia",
declara ela. Enquanto os amigos do Akita ocidental agem para
perpetuá-lo, o programa de orientalização do Akita japonês progride.
O procedimento é lento e gradativo. "Não mudem as coisas da noite
para o dia. Nós japoneses demoramos 40 anos para obter o típico
Akita japonês", disse Toyosaku Kariyabu, em 1995, na convenção na
Alemanha. O próximo passo proíbe utilizar exemplares mascarados nos
acasalamentos. Sua implementação está prevista para o ano que vem,
conforme foi determinado em 1992. Possíveis mudanças no padrão
poderão torna-lo mais detalhado quanto a algumas características
físicas, como o formato da extremidade dos olhos e a angulação das
pernas traseiras. "A angulação deverá ser especificada em 145 a 150
graus, pois só assim é possível o típico andar saltitante da raça",
prevê Anita. "Existem grandes possibilidades de o JKC organizar um
segundo evento para avaliar essas alterações", informa Bordone.
Adaptar-se à realidade é o que resta ao comprador e ao criador bem
intencionados. No Brasil a maioria dos Akitas segue a estética
japonesa, mas muita gente aprecia o tipo americano. O ideal é
encarar os dois tipos como raças distintas, acostumando a vista a
perceber as diferenças, valorizando-as, e não cruzando-os entre eles
para manter bem definidas as características de ambos.
REPRESENTANTES
DO AKITA NO MUNDO
Itália: "Na Itália é praticamente impossível encontrar, o Akita do
tipo americano. Já na década de 80, alguns criadores italianos
entenderam que nem todas as características do Akita ideal estavam
especificadas no padrão. Importamos Akitas e trouxemos juizes do
Japão para julgar exposições, traduzimos artigos de revistas e
disseminamos a maneira correta de criar." Andrea Bordone,
representante da Itália no congresso. México: "Apesar de sermos
filiados à FCI, praticamente só existe o Akita do tipo americano por
aqui. Para nós, a única saída foi criar a variedade "Akita
Americano"para que ele pudesse participar das exposições. Se
tivéssemos de eliminar as características americanas dos nossos
Akitas, acabaríamos com todo o plantel. Por isso queremos a
aceitação do tipo americano como uma variedade."Juan Lozada,
presidente do Akita Club de México. Brasil: "O Brasil encontrou-se
em uma situação bastante favorável em relação a vários países do
mundo com a mudança do padrão, em 1992. Pelo menos 90% dos nossos
Akitas são do tipo japonês e a situação continua melhorando."Kichiro
Maki, representante do Brasil no congresso. França: "Na França,
desde a década de 80, todos os Akitas têm de passar pela avaliação
de um juiz aos 12 meses, para receber seu registro definitivo. Se
tiverem máscara, o pedigree não é confirmado. Na época, criadores do
tipo americano entraram com uma representação contra a decisão na
FCI. Não conseguiram nada." Monique Bartolozzi, presidente do Club
Français des Chiens Nordiques, representante da França no congresso.
Estados Unidos: "Costumava ser contrário a algumas decisões do
japoneses em relação ao Akita. Mas depois que estive no congresso e
vi os cães de lá percebi que as diferenças são muito nítidas. Acho
que a solução é a consolidação de uma nova raça." Loren Egland,
representante dos EUA no congresso.
PARA SABER MAIS:
Clubes - Brasil:
1) Clube Paulista do Akita (FCI), tel.
(011) 883-4596.
2) The Akita Association, tel. (032) 231-1305.
EUA:
Akita Club of America, tel.(001602) 625-8677 ou 625-8634.
Japão:
1) Akita Inu Hozonkai, tel.
(00813) 3251-1659.
Filial de Los Angeles (EUA): (001818) 507-8196.
Livros:
1) L'Akita, de Fabio Fioravanzi, editora Dei Vecchi, Milão, Itália.
2) The New
Complete Akita, de Joan Linderman, editora Howell Book House, Nova
York, EUA.
3) The World of the Akita, de Barbara J. Andrews, T.F.H.
Publications, Neptune City, NJ, EUA.
REVISTA:
The Akita Voice: 776, Old Johnson Road, Fairplay, KY, 42735, EUA.
Akita World, da Hoflin Publishing: 4401, Zephyr Street, Wheat Ridge,
Colorado, EUA. tel.
(001303) 934-5656.
Reportagem: Rodrigo Fores (Coordenação: Flávia Soares). Texto:
Marcos Pennacchi (sobre texto de Léa De Luca, com alterações de
estrutura e roteiro de Marcos Pennacchi e Flávia Soares).
Revisão Técnica: (secretariada por Fábio Bense): Completa - Anita
Soares, Hilda Drumond, José Peduti Neto, Kichiro Maki, Maria Ercília
Peverley. Parcial - Andrea Bordone, Fumiko Nakatani, Juan Lozada,
Monique Bartolozzi, Nairangela Ferreira Zardo, Linda Yelvington,
Loren Egland e Raymond Triquet
Foto.: Luiz Henrique Mendes
Prop.: White Feet Kennel
Direitos autorais do texto: Cães&Cia, é proibida a reprodução total
ou parcial do texto
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